Bitcoin: O herói do momento

Hedge contra a crise bancária? 

O Bitcoin está se dando bem nesse cenário caótico. E não é surpresa, afinal ele é aclamado como uma alternativa ao sistema bancário tradicional, lucra com as baixas das taxas de juros, e teve alguns impulsionadores técnicos, como um short squeeze

Mas, vamos tentar não imaginar o Bitcoin como um hedge imune ao ambiente atual, pois ele também possui algumas limitações:
 
1) Ele não protege contra todos os tipos de inflação. 

2) É dependente de quedas nas taxas de juros e melhora da liquidez. 

3) Desempenho na crise é completamente imprevisível. 

4) Muito volátil. 

5) Talvez não seja tão descentralizado e independente de bancos tradicionais quanto esperávamos. 

Faz sim todo o sentido ter alocação no Bitcoin, mas jamais apostar todas as suas fichas imaginando que isso te salvaria de uma super crise econômica. 

Oque está acontecendo afinal? 

Após o colapso do banco americano SVB – Silicon Valley Bank, todos os tipos de ativos financeiros foram abalados por conta de uma enorme nuvem de preocupações e desconfianças bancárias. 

Mas essa negatividade não afetou o Bitcoin, que mês passado teve sua melhor semana desde janeiro de 2021

A primeira e principal criptomoeda está vivendo seus momentos de herói a medida que o sentimento anti bancário vem crescendo no mundo todo. Então, vamos dar uma olhada se faz sentido ter um pouco dela na carteira. 

Porque exatamente o Bitcoin está subindo? 

Para começar, sem dúvida devido à crescente desconfiança nos bancos. Após a falência do SVB, Silvergate e Signature, fora o problema com o Credit Suisse, as pessoas se deram conta que o dinheiro que estão deixando nos bancos não é tão delas quanto imaginaram, e que na verdade, se parece mais com um empréstimo ao banco. Também se deram conta que o banco utiliza seu dinheiro para muitas outras coisas, como, por exemplo, para emprestá-lo a outros clientes e investir em ativos rentáveis – afinal, sob o sistema de reservas bancárias, os bancos precisam manter apenas uma parte dos depósitos em suas reservas. 

E se por acaso o banco falir, no caso de todos os clientes solicitarem o seu dinheiro ao mesmo tempo e o banco não ter a liquidez necessária, muito provavelmente eles não vão conseguir recuperar todas as suas economias (embora possamos contar com a proteção de 250 mil dos órgãos de proteção, o FDIC garantindo em dólar nos EUA, e o FGC garantindo em reais no Brasil). 

Na contramão, o Bitcoin é descentralizado, não tendo nenhuma autoridade ou intermediário no controle – esde que não esteja em uma corretora, é claro. Ele também é transparente, uma vez que todas as transações são registradas na blockchain, que é pública. Ele também é portátil, podendo ser transferido, carregado e armazenado entre fronteiras e plataformas, independente do montante. 

Mantendo o Bitcoin em uma carteira privada, você está protegido contra o risco da contraparte. Sendo assim, apesar de suas próprias deficiências, ele ainda fornece uma alternativa ao sistema financeiro tradicional. 

O cenário macroeconômico também está soprando a seu favor. Diferente do dinheiro tradicional que pode ser impresso em larga escala, o Bitcoin tem sua oferta programada e limitada, de forma que ela vai encolhendo com o passar do tempo, sendo mais provável que ele não desvalorize pela futura impressão de dinheiro ou manipulação dos bancos centrais. 

Portanto, quando os investidores antecipam que os bancos centrais podem desencadear novos estímulos, como cortar as taxas de juros ou lançar compras de ativos em grande escala, o bitcoin se torna mais atraente em relação às moedas “fiduciárias” tradicionais. 

Para resumir, ativos como o ouro, títulos do tesouro e o Bitcoin se beneficiam muito da queda das taxas de juros e do aumento da liquidez. Coincidentemente (ou não), todos os três tiveram um forte desempenho desde o colapso do SVB. 

Aparentemente o Bitcoin também está se beneficiando de fatores técnicos, uma vez que há evidências de um short squeeze, que acontece quando os compradores pressionam o preço para cima, forçando os vendedores a descoberto fecharem suas posições, turbinando o movimento de alta.

Há também uma boa chance do Bitcoin estar se beneficiando do fluxo de stablecoins sendo convertidas em Bitcoin. 

Agora, vamos encarar o lado ruim

Vamos ser honestos, o Bitcoin já deixou de ser apenas um ativo especulativo há muito tempo. Ele fornece uma alternativa ao sistema bancário tradicional e uma proteção contra as consequências não intencionais de políticas fiscais e monetárias extremas – medidas essas que podem se tornar cada vez mais severas conforme aumentam as pressões sobre o sistema financeiro. 

Dessa forma, faz todo o sentido manter um pouco da criptomoeda em seu portfólio. 

Então, vamos entender agora quais são os riscos e limitações do Bitcoin, principalmente no quesito hedge contra o cenário atual. 

1) O Bitcoin funciona bem como um hedge contra a hiperinflação, mas não contra todos os tipos de inflação. Muito provavelmente não vai funcionar bem contra a inflação de custos por exemplo, onde temos um aumento no preço devido a choques externos, como interrupções na cadeia de suprimentos. No ano passado ele também não teve uma boa performance onde a inflação era alta, mas não extrema. 

2) O Bitcoin não é um ativo muito seguro e confiável. Ele pode sim se sair bem em alguns cenários extremos, mas provavelmente não preservará seu valor em uma turbulência de mercado, sendo ainda muito dependente dos investidores, que, de repente, podem apenas optar por reduzir o risco de seus portfólios. 

Sendo assim, enquanto não puder ser amplamente utilizado como meio de pagamento, ainda dependerá da disposição dos investidores em assumir riscos. E sua correlação com outros ativos tem sido muito instável, o que significa que você não temos como saber ao certo como ele se comportará em diferentes cenários. 

3) É um ativo de longo prazo, prospera em um cenário de baixa nas taxas de juros e liquidez sendo adicionada no sistema, e sofre no cenário contrário onde as taxas de juros estão subindo e as condições financeiras vão ficando apertadas. 

Se o FED precisar elevar as taxas e mantê-las altas por mais tempo, provavelmente o Bitcoin não apresentará um bom resultado. 

4) Sua volatilidade permanece extrema, não sendo assim uma reserva de valor ideal, principalmente se falando de curto prazo. Precisamos considerar isso, afinal, você não vai querer ficar com sua reserva presa em um investimento que virou longo prazo para não realizar perdas financeiras. 

5) “Não são suas chaves, não são suas moedas” / “Not your keys, not your coins” – essa típica frase é usada para representar quem realmente detém as criptomoedas. A menos que você mantenha seus bitcoins em uma carteira privada, onde você faz a segurança das chaves privadas, as moedas não são suas. Comprando de uma corretora, você estará menos protegido do que se guardasse o dinheiro no banco. Portanto, se você quiser começar a investir nesse sistema, certifique-se de fazer da maneira correta. 

6) Talvez o Bitcoin não esteja tão descentralizado quanto pensamos, afinal, o poder de mineração está concentrado em alguns poucos grandes pools de mineração, onde suas operações incluem serviços que rodam na nuvem, ou seja, dependem de alguns provedores, como a Amazon. 

7) O Bitcoin não está tão isolado do sistema tradicional. Tudo bem, a rede pode operar sem bancos, mas ainda continua sendo influenciada pela política do banco central e continua precisando de bancos para facilitar a movimentação e conversão de valores. Por conta disso, o Bitcoin nem sempre se desvincula da incerteza bancária. 

Conclusão 

Possuir um pouco de Bitcoin em seu portfólio pode adicionar certo equilíbrio e protegê-lo de alguns cenários extremos. Mas definitivamente ele não é um ativo invencível. 

Resumidamente, não aposte tudo no Bitcoin, e se você estiver procurando fazer hedge dos riscos atuais do sistema financeiro, considerem também outros ativos como:

Ouro, que está menos exposto às condições financeiras;

Dólares americanos, que se beneficiam de taxas de juros elevadas e apertos financeiros;

Títulos do tesouro, que recebem boa parte da fuga de ativos de risco.